Há certos lugares em que é meio óbvio que vou estar... hospitais, por exemplo. Lá uma companheira está sempre presente... a Doença e, muitas vezes, é inevitável que eu chegue onde ela se instalou.
Que fique bem claro uma coisa. Doença é Doença, e Morte é Morte. Chamei-a de companheira, mas não quer dizer que sejamos próximas, que façamos planos juntas, que maquinamos contra ou a favor da vida de alguém.
Ela tem seus próprios planos, faz o que quer com quem quer. Age por conta própria. E eu não sei como ela decide atacar alguém, prostrar alguém ou, simplesmente, passar de levezinho. Ela também não está preocupada comigo, não sabe de meus planos. A única coisa que sabe é que, às vezes, ela está lá e eu chego lá também. E quando eu chego ela vai embora. Na verdade, quando chego qualquer coisa vai embora. Fica só eu: a Morte.
Mas também há certos lugares em que apareço que não é tão óbvio... inclusive é até meio raro eu aparecer nesses lugares.
Katy e seus dois filhos, Martin e Kelvin, chegam em casa. Ela liga a TV e vai tomar seu banho de banheira - pra relaxar. É sagrado, seu banho de banheira é sagrado... 'não me incomodem', diz ela aos meninos.
Na TV nada de interessante. 'Vamos brincar de esconde-esconde?', pergunta Martin, de sete anos, ao irmão caçula, de cinco. 'Vamos, sim.' E Martin vai se esconder.... gritando 'você nunca mais vai me ver'.
Desce ao térreo da casa, entra na lavanderia. Seu pai, Ken, havia chegado de viagem no dia anterior e a mala estava lá, pra ser lavada por Mary, a diarista. Martin abre a mala, entra e com alguma dificuldade consegue fechar o zíper. Grita 'pronto!'.
Kelvin procura, procura, procura... e nada. Desce à lavanderia, olha atrás de tudo, abre porta de armários, olha até dentro da máquina de lavar roupas (onde uma vez havia se escondido). Martin, dentro da mala, prende a respiração... nem um músculo se mexe... só prestando atenção nos passos do irmão, no abre e fecha de coisas.
Kelvin corre para os quartos... e nada. Volta pra sala e, na TV, um programa legal! Senta no chão e se esquece do irmão, absorto no desenho animado...
Passou-se uma hora, a mãe sai do banho, prepara um lanche e chama os garotos para lanchar. Kelvin aparece na cozinha, Matin não... 'ele está escondido, mamãe, não consegui encontrá-lo'.
Saem os dois à procura. E procuram, procuram... quando o pai chega ajuda... e nada. Claro que foram à lavanderia, vasculharam cantinho por cantinho da casa... e fora da cas também.
Martin, dentro da mala, prende a respiração, fecha os olhos e, vencido pelo cansaço, dorme... dorme... e dorme. Daí eu cheguei, e ele não acordou mais.
Vizinhos, polícia, cartazes por quase toda Bakersfield, no interior da Califórnia...
Só três dias depois, Mary, ao pegar a mala pra lavar, primeiro achou estranho o peso e se perguntou 'Dona Katy não desfez a mala? Que estranho!. Então abriu....
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