segunda-feira, 15 de abril de 2013

Ventava muito naquela madrugada. João acordara às 4 horas e se preparava pra ir pro mar. Arlete, sua esposa, acordou e sonolenta arrumou a mesa pro café. A toalha xadrez branco com vermelho, em cima da mesa simples de madeira... uma caneca de lata com café com leite quentinho, três pãezinhos, que ela rapidamente esquentou na frigideira pra ficarem sequinhos como seu Jô gostava, manteiga e duas roscas de polvilho. O café de todo dia... Ela só tomou um golinho de café pretinho

Preparou, na sacola, um lanche. Pão, água, bananas e três roscas de polvilho. Eram as últimas... tinha de lembrar de fazer mais naquela tarde.

João pegou sua tarrafa e tudo o que precisava para uma boa pescaria. O mar era seu sustento, do mar ele trazia o sustento para a família... exatamente como seu avô e seu pai haviam feito. Tudo igual, era a história se repetindo.

Às 4:30 abriu a porta da casinha de madeira e sentiu uma lufada do vento frio da madrugada... ia ser um dia daqueles. Mas ele estava bem agasalhado... não ia passar frio... também já estava acostumado com o frio.

Arlete enganchou no braço do seu velho e, como todas as manhãs acompanhou-o até o barquinho. Ajudou-o a organizar as coisas, ajudou a empurrar o barquinho pra água... estava fria, muito fria (por que ela teve a sensação de que naquele dia a água estava um pouquinho mais fria do que em qualquer outro dia que tinha molhado os pés?).

'Vai com Deus, meu velho... e volta com Ele'... 'E você fica com ele.' Eram sempre as mesmas palavras. Beijou o rosto enrugado e sorridente (quase sem dentes) de seu marido, sentou na areia, abraçou suas próprias pernas e ficou olhando-o ir mar adentro. Forçou os olhos pra ver um pouquinho mais o ponto minúsculo em que havia se transformado o barquinho.

O sol já começava a se espreguiçar... seus primeiros raios surgiam lá no horizonte. 'Como é lindo', pensou ela.

No caminho de volta, sentiu um aperto no coração... uma dorzinha... uma dor pequenininha que se transformou numa dor quase insuportável... que se tornou rapidamente insuportável... Já enxergava as luzes fraquinhas de sua casa... mais uns passos, só mais um pouquinho... até conseguiu colocar a mão na fechadura, mas não teve forças pra abrir. Encostou o corpo na porta, escorregou devagarinho, sentou nos degraus e fechou os olhos....

Foi tudo tão mansinho...

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